Nenhum outro esporte no mundo seduz tanto o seu espectador como o futebol. A magia de ver uma bola explodir na trave 4 infinitas vezes no mesmo lance teimando em não entrar não importando quantos milhões de dólares custaram os pés que a atingiam no afã do gol ou a assombrosa e inacreditável trajetória assumida pela bola, ao ser atingida por um canhão em forma de pé, para então cruzar a linha do gol no único ângulo em que nenhum goleiro humano conseguiria chegar a tempo. Realmente o futebol é um esporte de muitos mistérios.Um destes, particularmente, vem me incomodando e, acredito a boa parte dos torcedores do Fogão. O chamado “garantir o resultado”.
Duas equipes entram em campo para se enfrentar. São 11 jogadores de cada lado. O jogo começa e logo uma das equipes mostra-se melhor organizada, mais eficiente, envolvente, perigosa. A torcida grita, incentiva, o adversário fica tonto, vendo as jogadas de velocidade pelos flancos, chutes envenenados são postos à escanteio. Até que o inevitável acontece. Um, dois, às vezes até três gols de vantagem. Partidas épicas já registraram confortáveis quatro gols de diferença entre caçador e a sua presa.
Então, o fenômeno acontece. Inexplicavelmente, aquela equipe superior, que encontrara a forma perfeita para destruir seu adversário pára de jogar. Abdica da posse de bola, da criação de jogadas, do controle do jogo para tentar defender a vantagem atrás das muralhas de sua defesa.
Pois bem, a caça, até então assustada e acuada, percebe que seu perseguidor resolveu tirar uma soneca. O goleiro percebe que não precisa mais dar bicões, pois seus zagueiros não estão mais sendo pressionados e a bola consegue chegar mais facilmente ao responsável pela criatividade do time. Este por sua vez encontra espaço, tempo e opções. Seus implacáveis marcadores estão agora recuados, na meia lua defensiva, garantindo que dali a bola não passará. Mas eles estão enganados, pois ela passará, eventualmente passará, pode levar, 5, 10 ou 45 ou 90 minutos, mas eventualmente passará. E a cada bola que furar este bloqueio e encontrar o fundo das redes será uma rachadura cada vez maior na muralha de covardia erguida em cima de uma vantagem conquistada com tanta coragem. Até que perante os olhos de uma torcida estupefata o muro cairá e o empate, ou até mesmo a derrota estará decretada.
Foi assim contra o Bahia no primeiro turno, contra o São Paulo no Engenhão, até mesmo contra o Flamengo. Envolvemos o adversário construímos a vantagem e então, misteriosamente abdicamos do jogo. Fizemos o mesmo contra o Corinthians e Atlético-PR, mas felizmente, nestes dois casos a bola precisou de mais de 45 minutos para achar nossas redes. Foram seis pontos jogados fora, e outros 4 ganhos com o dedo apontado para a cara da sorte. Esses números mostram um padrão preocupante para uma equipe que pretende ser campeã. Não podemos zombar e abusar tanto dessa amiga tão pouco presente em nossa história. Precisamos nos manter alertas, no controle durante os 90, 98 minutos de jogo. Precisamos saber o que fazer com as vantagens construídas tão regularmente.
Sei que este comportamento não é exclusivo do nosso esquadrão alvinegro, sei que outros postulantes cometem o mesmo erro. Sei também que naturalmente o adversário em desvantagem no marcador, normalmente busca uma atitude mais agressiva, na tentativa de sair da situação crítica em que o adversário o colocou. E foi justamente para estes momentos que foi inventado o contra-ataque. Quando o adversário, ferido, desesperado lança-se ao ataque, muitas vezes desordenadamente, abrindo espaços em sua retaguarda. Golpes precisos, rápidos, gols e mais um gol até que reconhecendo a derrota o adversário substitui um atacante ou um meia, por um zagueiro e passa a dar bicões na bola rezando para que o tempo passe rápido.
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